Brasiliense tem usado cada vez mais carros do que transporte público

Na contramão do que preconizam as políticas de transporte, o DF tem quase a metade dos trajetos feitos de automóveis ou motocicletas e o tempo gasto neles é cada vez maior. Melhoria da mobilidade urbana exige, além do investimento em transporte público, projetos voltados ao desenvolvimento social

Uso do transporte de massa tem caído no DF nos últimos anos, enquanto cresce a opção pelo uso do carro ou moto nos deslocamentos diários(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )
Com uma frota de 1.769.003 veículos, com crescimento médio de 3% ao ano, o Distrito Federal assiste ao aumento dos deslocamentos de carro e à redução do uso do transporte público. O Plano de Desenvolvimento do Transporte Público sobre Trilhos (PDTT-DF), a que o Correio teve acesso com exclusividade, mostra que, em 1990, 32% das viagens eram feitas de automóveis ou motocicletas, índice que passou para 49,5% em 2016. No mesmo período, os trajetos de ônibus e de metrô caíram de 36,1% para 27,7%, apesar da expansão da malha.

O levantamento também revela que os moradores da capital estão andando menos a pé. No período analisado, as caminhadas de até 500 metros despencaram de 32% para 20%. O único aumento constatado foi no ir e vir de bike. Se, em 1990, o percentual era tão baixo que nem aparecia no gráfico, em 2016, esse modo de transporte apareceu como o responsável por 2,8% dos deslocamentos. Pontuou pela primeira vez em 2009, mesmo ano em que se intensificou a construção de ciclovias na cidade, inclusive com aprovação da Lei nº 4.397, que criou o Sistema Cicloviário do Distrito Federal.

A terceira reportagem da série DF sobre Trilhos — a glória do passado e a incerteza do futuro (clique aqui para ler a série completa) mostra que promover a mobilidade urbana é reconhecer o transporte como um direito social de todos os cidadãos: dos que vivem na miséria aos que se encontram nas mais altas faixas de renda. Elaborar projetos que atendam às necessidades de todos exige do gestor público uma visão holística da cidade e dos seus moradores.

Mais do que investir na oferta de ônibus, metrô, trem ou veículo leve sobre trilho, é preciso proporcionar deslocamentos integrados, como preconiza a Política Nacional de Mobilidade Urbana (leia O que diz a lei) e em consonância com as Lei de Uso e Ocupação do Solo (Luos) e do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), dois instrumentos legais que norteiam para onde a cidade vai crescer e onde as indústrias vão se instalar.

No caso do DF, os planos do metrô para as próximas duas décadas é tirar do papel um projeto antigo do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ao longo de toda a W3 e implantar o mesmo sistema no Eixo Monumental. Diferentemente do plano anterior, as árvores da W3 serão preservadas. “A ideia é alargar a calçada dos comércios, transformando o espaço num imenso calçadão. E o VLT desce numa via exclusiva no sentido Setor Hospitalar-Asa Norte. Os carros subirão pela W3 sentido Norte-Sul. Quem quiser fazer o trajeto de carro Sul-Norte seguirá pela rua atrás do comércio ou das residências”, adianta Marcelo Dourado, presidente do Metrô-DF.

Já no Eixo Monumental, o VLT começaria na Rodoferroviária, sentido Praça dos Três Poderes. Entre a Praça do Cruzeiro e o Memorial Jk, ele passaria para o lado Norte da rodovia e desceria até a Esplanada (veja mapa). “Esse trajeto leva em conta as regiões com o maior número de pessoas atendidas. No começo, os moradores do Cruzeiro, da Octogonal e do Sudoeste. Depois, dos órgãos dos governos e setor de esportes”, cita Dourado. O traçado definitivo depende do projeto funcional, uma segunda etapa que analisa todos os fatores da região, como a existência de cabos subterrâneos, galerias de água e a parte ambiental.

Qualidade de vida

Publicação lançada na última semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) coloca a mobilidade urbana entre os principais desafios do país para os próximos anos. A constatação central é de que a população de baixa renda que habita as periferias se afasta cada vez mais das áreas onde se localizam as oportunidades de empregos, de acesso à cultura e à educação.

De acordo com o documento Desafios da Nação, que traça caminhos possíveis para a melhoria desse cenário e o aumento das chances de mobilidade social, é importante que os gestores públicos pensem de maneira conjunta as questões habitacionais, de mobilidade urbana, uso do solo e meio ambiente.

Um dos indícios da deterioração das condições de transporte urbano no país apontado pelo Ipea é o aumento no tempo gasto no trânsito para deslocamentos casa-trabalho. Nesse quesito, o Distrito Federal perde apenas para Rio de Janeiro e São Paulo, regiões metropolitanas onde a população precisa reservar mais tempo, em média, para esses trajetos.

O morador da capital federal gastava pouco mais de 30 minutos, em média, em 2001. Em 2015, esse tempo saltou para 40, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) elaborados pelos autores da publicação do Ipea.

Na Rodoviária do Plano Piloto, as lamentações pelas dificuldades do transporte público se repetem entre os usuários. No espaço em reforma, as vidas de passageiros, comerciantes e trabalhadores informais se entrelaçam diariamente, ainda que por apenas alguns minutos.

Moradora de Planaltina de Goiás, a diarista Denise Silva, 34 anos, leva um tempo ainda maior que o apontado pela pesquisa: uma hora e quarenta minutos de casa até o Sudoeste, onde faz faxina pelo menos uma vez por semana. Cerca de 60km separam as duas localidades. A necessidade de aumentar a renda familiar vale o sacrifício.

“Em Brasilinha (nome popular de Planaltina de Goiás), a faxina é R$ 70 e quase ninguém precisa. Aqui em Brasília, dependendo do lugar, pagam até R$ 170. Então, pego meus dois ônibus e aproveito o tempo para ficar olhando o celular”, conta.

E, como ela, há uma multidão de descontentes. Celulares e fones de ouvido são companheiros inseparáveis de quem enfrenta a exaustiva jornada do transporte público. Vez ou outra também se vê os olhos ávidos nas páginas dos livros e revistas. O sushi man Michael Lucas Barros Pereira, 31 anos, é da turma do fone de ouvido. Ele vive em São Sebastião e trabalha no Sudoeste. O trajeto é percorrido entre uma e duas horas. Enquanto sacoleja dentro do ônibus, Michael se queixa da falta de pontualidade do coletivo e da redução da frota no período noturno. “A passagem é cara pra gente passar por tudo isso”, critica.

Mais opções

O pesquisador do Ipea Rafael Pereira, um dos responsáveis pelo capítulo da publicação que trata de moradia, mobilidade urbana e governança da política urbana no país, explica que um dos elementos mais importantes na construção da política de transportes é pensar em “justiça distributiva”, ou seja, entender quem vai se beneficiar dessa política pela qual todos estão pagando. “Em diversos países europeus, nos Estados Unidos e no Canadá, por exemplo, o investimento em transporte não é um fim em si mesmo, é um meio para facilitar o acesso da população a escolas, parques, áreas verdes, visitar parentes”, elenca.

Existe um consenso, de acordo com o especialista, de que as políticas nessa área deveriam beneficiar mais a população vulnerável e de baixa renda, com o objetivo de reduzir desigualdades. “Expandir o investimento no transporte público é, em última instância, expandir as opções dessas pessoas.”

Fonte: Correio Brazieliense
Data: 23/12/2018
Por: Adriana Bernardes/ Mariana Niederauer

Link: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2018/12/23/interna_cidadesdf,727018/brasiliense-tem-usado-cada-vez-mais-carros-do-que-transporte-publico.shtml

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