Indaiatuba lidera ranking da Região Metropolitana, segundo pesquisa de satisfação

Líder do ranking, Nilson Gaspar (MDB), prefeito de Indaiatuba, diz que a avaliação o motiva a trabalhar ainda mais e buscar sempre o melhor para a cidade que governa, garantindo a qualidade de vida dos munícipes.

 

Indaiatuba e Jaguariúna são as únicas cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC) em que a população está altamente satisfeita com a Administração municipal em 2018. Os dados são de dois levantamentos dos Indicadores de Satisfação dos Serviços Públicos (Indsat). As cinco primeiras posições do ranking são preenchidas também, respectivamente, por Americana, Santa Bárbara d’Oeste e Hortolândia.
O último estudo realizado no 2º trimestre aponta Campinas, maior cidade da região, na 12ª colocação entre as 20 cidades da RMC. Este serviço público, em particular, começou a ser estudado pelo Indsat no 4º trimestre de 2016. A margem de erro das pesquisas realizadas pelo instituto é de 4,8%, sob um intervalo de confiança de 95%.
Líder do ranking, Nilson Gaspar (MDB), prefeito de Indaiatuba, diz que a avaliação o motiva a trabalhar ainda mais e buscar sempre o melhor para a cidade que governa, garantindo a qualidade de vida dos munícipes. Ele aponta ainda que o Munícipio se desenvolveu muito nos últimos 20 anos. Apesar da crise, Gaspar frisa que existem mais de 20 obras em andamento em todas as áreas, entre elas a ampliação do Hospital Augusto de Oliveira Camargo (HAOC).
Na 2ª posição, Gustavo Reis (MDB) comenta que o bom resultado obtido por Jaguariúna é fruto da seriedade e eficiência das políticas públicas implementadas em diferentes áreas desde 2017. Segundo ele, isso é realizado em sintonia com objetivos de desenvolvimento sustentável das Organizações das Nações Unidas (ONU).
A 3ª colocação foi recebida com alegria pelo prefeito Omar Najar (PMDB), de Americana. “Em comparação com os resultados do ano passado, tivemos melhoras significativas em praticamente todos os setores”, ressaltou, informando que “muito ainda será feito”.
Governo Jonas
Segundo o estudo, de 400 pessoas entrevistadas, 1% classificou a gestão de Campinas, ou seja, o governo do prefeito Jonas Donizette (PSB), como ótima. A maior parte da população, 31% (124), avaliou como péssima, enquanto 28% (112), como regular. Outros 27% (108) entendem como ruim. Já 13% (52) apontaram que o gerenciamento da cidade é bom.
Os números colocaram o Munícipio na 12ª posição do ranking referente ao 2º trimestre. Contudo, a cidade mostrou evolução, uma vez que ocupava a 13ª colocação no 1º trimestre. Se comparado ao primeiro semestre de 2017, Campinas apresentou exatamente as mesmas posições.
Entre as melhores
Em nota, Jonas destacou que Campinas está entre as dez melhores cidades do Brasil em várias pesquisas, seja em planejamento urbano, inovação, inteligência, qualidade de vida, atração de investimentos e também administração pública.
“Comparando com cidades do mesmo porte, estamos sempre entre as primeiras”, frisa o prefeito.
De acordo com o Indsat, se comparado as dez maiores cidades do Estado de São Paulo, o Munícipio é a 7ª melhor na gestão. Neste âmbito, as três primeiras posições são ocupadas, respectivamente, por São Bernardo do Campo, São José dos Campos e Santo André.
Jonas explica que existe um “desafio diário de modernizar a administração, torná-la mais acessível aos cidadãos, estimular o empreendedorismo, atrair investimentos e prestar melhores serviços à população, especialmente na saúde, na educação e no transporte”.
O prefeito mencionou ainda uma série de ações e realizações do seu governo. Na Educação, por exemplo, ele lembrou que foram entregues 13 novas creches que, aliadas a outras reformas, geraram 7,4 mil novas vagas para crianças com até 3 anos e 6 meses de idade.
“Mesmo com todas as dificuldades decorrentes da grave crise econômica no País, aumentamos o orçamento da Saúde e da Educação em 2018”, enfatizou, completando que para o segundo setor citado será destinado mais de R$ 1 bilhão.
Imagem de capa: reprodução

Brasil perde R$ 267 bi por ano com congestionamentos

Mais de nove milhões de brasileiros demoram mais de uma hora para chegar ao trabalho. Região Metropolitana do Rio tem o maior tempo médio de deslocamento do país.

O Brasil perde, em média, mais de R$ 267 bilhões por ano por causa dos congestionamentos no caminho para o trabalho. Isso representa quase 4% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) do país – soma de todos os bens e serviços produzidos. O custo do tempo perdido no trânsito será um dos temas do primeiro episódio da GloboNews Em Movimento, nova série da GloboNews sobre mobilidade, que estreia nesta terça-feira (7), às 21h30.

O cálculo foi feito pelo economista Guilherme Vianna, da Quanta Consultoria, uma das empresas responsáveis por elaborar o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Foram analisadas as dez principais Regiões Metropolitanas do país: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Salvador, Recife, Porto Alegre, Curitiba e Belém.

A pesquisa usou dados da série histórica da Pesquisa Nacional por Domicílio (Pnad), de 1992 até 2015 (último dado disponível), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e comparou o tempo médio das viagens com o valor médio da hora de trabalho da população empregada em uma das dez Regiões Metropolitanas do país.

Segundo Vianna, mais de nove milhões de brasileiros demoram mais de uma hora para chegar ao trabalho. O tempo considerado ideal seria de 30 minutos. Na conta do pesquisador, o tempo perdido no trânsito pelos trabalhadores poderia ser convertido em renda, produtividade, lazer, estudos ou bem-estar.

“A má distribuição de empregos e serviços na cidade é o principal problema. Ao analisar a renda, os mais ricos e os mais pobres demoram menos nos deslocamentos do que a média. Quem demora mais são as classes intermediárias, que trabalham muito longe. Na realidade, os mais pobres não têm dinheiro nem para ir trabalhar”, afirma Vianna.

Desde 2012, a Região Metropolitana do Rio possui o maior tempo médio de deslocamento casa-trabalho do país, segundo os números da Pnad. São gastos, em média, 50 minutos só para ir ao trabalho. A Grande São Paulo, com seus 20 milhões de moradores, aparece em seguida. Lá, são gastos 46 minutos.

“O Rio de Janeiro é muito desigual: 56% dos empregos estão concentrados entre o Centro, a Zona Sul e a Barra da Tijuca, mas a população dessas regiões não passa de 30%. O tamanho da Região Metropolitana do Rio em área é quase igual à de São Paulo. Mas em São Paulo há mais polos de emprego, que são mais bem distribuídos do que no Rio. Sem contar que a infraestrutura de transporte é maior”, disse Vianna.

A equipe do programa GloboNews Em Movimento percorreu seis capitais para mostrar as soluções e os principais problemas de mobilidade no país. Em 12 episódios, a série vai ao ar às terças, às 21h30, e terá participação de correspondentes internacionais em Nova York, Londres e Tóquio. Na estreia, em Curitiba, o arquiteto Jaime Lerner usou a tartaruga para explicar a metáfora das grandes cidades.

“A cidade hoje enfrenta três problemas essenciais: mobilidade, sustentabilidade e coexistência. Minha metáfora da cidade é a tartaruga. Ela é um exemplo de trabalho, mobilidade, de moradia, tudo junto. E, ao mesmo tempo, o casco da tartaruga é quase como se fosse uma tessitura urbana. Se você cortar o casco da tartaruga, a moradia aqui, o trabalho ali, ela vai acabar morrendo. É isso que está acontecendo com nossas cidades”, comenta.

G1 07/08/2018

Por Guilherme Ramalho, GloboNews

Link: https://g1.globo.com/globonews/noticia/2018/08/07/brasil-perde-r-267-bi-por-ano-com-congestionamentos.ghtml

 

O segredo de cidades que melhoram mesmo na crise

Estudo inédito da Macroplan mostra que situação fiscal dos municípios não é boa – mas isso não é justificativa para a piora dos serviços públicos

Cidades: entre 2010 e 2016, a receita do grupo dos 100 maiores municípios brasileiros cresceu 13,6% (Germano Lüders/EXAME)

Para descobrir como está a qualidade de vida da população das cem maiores cidades brasileiras, que concentram 39% da população e 50% da riqueza produzida no país, a consultoria Macroplan criou um índice que leva em conta 15 indicadores de educação, saúde, segurança e saneamento básico. O estudo mostrou boas notícias. Entre 2006 e 2016, houve melhora em indicadores de saúde, educação e saneamento.

A má notícia é que o ritmo de melhora é lento. Por exemplo: mantendo a tendência dos últimos anos, universalizar o esgotamento sanitário vai levar cem anos. O estudo mostra que a situação fiscal dos municípios está longe de ser tranquila. Mas conclui que isso não é justificativa para impedir o avanço da qualidade dos serviços essenciais – como as melhores cidades mostram.

Entre 2010 e 2016, a receita do grupo dos 100 maiores municípios cresceu 13,6% (em termos reais, isto é, descontada a inflação do período), puxada pelas receitas tributárias, o que é uma boa notícia, dado que um dos problemas das cidades brasileiras é a dependência das transferências de recursos dos estados e governo federal. Mas as despesas avançaram num ritmo superior – crescimento real de 16,8%.

A alta dos custos foi puxada por gastos com pessoal. A despesa com funcionários da ativa subiu 24,4% e a com inativos e pensionistas, 56,5%. Como são despesas difíceis de serem cortadas, afinal não é possível demitir funcionários públicos nem reduzir os dispêndios com aposentados, só resta ao gestor apontar a tesoura para onde é mais fácil cortar – os investimentos, que caíram 16,4% no período.

A líder do ranking, pelo segundo ano consecutivo, é Maringá, cidade de 400 mil habitantes no interior do Paraná – e que também liderava em 2006. A receita tributária do município é 880 reais por habitante e o investimento per capita, 350 reais. São números menores do que os de Niterói, que tem o maior investimento por habitante, quase 780 reais e receita tributária per capita de quase 1.500 reais, mas ocupa a 38ª posição. Outro indicativo de que sair gastando não é sinônimo de sucesso: Campos dos Goitacazes (RJ) tem a maior despesa com prestação de serviços (5.400 reais), mas ocupa a 74ª posição no ranking.

A cidade paranaense não lidera nenhum das quatro áreas analisadas pela Macroplan e ganha pelo “conjunto da obra” – a melhor posição é o segundo lugar em saneamento e sustentabilidade, atrás de Santos (SP). Nesse item, a cidade tem como destaque ser uma das sete que universalizaram o acesso à rede de esgotos.

Maringá tem a terceira menor taxa de mortalidade por doenças crônicas não transmissíveis (224 por cem mil habitantes) e 17ª menor taxa de homicídios (10 mortes por cem mil habitantes). E em educação, os alunos da rede pública do Fundamental I tem a segunda melhor nota no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

O sucesso da cidade se deve ao trabalho em conjunto entre os setores público e privado. Maringá é uma das poucas cidades que nasceram planejadas e, ao contrário de outras, como Brasília, não cresceram de modo desordenado. A vocação para o trabalho em cooperativa também remonta à fundação da cidade. As áreas vendidas no entorno da cidade não tinham mais do que 10 alqueires, o que forçou os empresários e agricultores da cidade a se juntar. “Desde sua fundação Maringá sabe que, para se desenvolver, é preciso unir forças”, diz o prefeito da cidade Ulisses Maia.

O grande salto da cidade foi dado em 1996, com a fundação do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (Codem), um braço da associação empresarial e comercial da cidade. Em períodos eleitorais, os candidatos a prefeito precisam adequar as propostas às diretrizes do Codem. “Os gestores públicos não podem criar políticas e projetos sem consultar o Codem”, diz o prefeito. “Tudo é discutido e cada ação é planejada e se insere num objetivo maior.” Em 2015, os integrantes do Codem contrataram, com recursos do próprio bolso, a consultoria PwC para um projeto ambicioso: o Masterplan 2047. “Nosso objetivo é tornar Maringá a melhor metrópole do interior do Brasil”, diz o presidente do Codem, José Roberto Mattos.

Um exemplo prático de como tudo funciona melhor quando o setor público senta para conversar com a iniciativa privada: para se recuperar de uma crise econômica no final da década de 90, com setores do agronegócio migrando para a região Centro-Oeste, o Codem viu uma oportunidade de desenvolvimento do setor de serviços qualificados, como saúde, educação e tecnologia da informação – um caminho diferente de muitas cidades, que sempre apostaram na atração de indústrias via incentivos tributários.

Resultado: além de empregos e crescimento econômico, mais impostos para os caixas municipais. Segundo o sistema tributário brasileiro, o Imposto sobre Serviços (ISS) vai para os cofres municipais, ao contrário do (ICMS), que tem predominância estadual, ou outras contribuições, que vão para os cofres da União. Somente no primeiro semestre, o aumento da arrecadação via ISS no primeiro semestre foi de 21%, com previsão de R$ 180 milhões até o final do ano – 16% dos R$ 1,1 bilhão de receitas previstas.

Eficiência na cobrança

Obter receitas próprias, sem depender dos repasses dos estados e da União, é o principal desafio dos prefeitos das cidades brasileiras, segundo um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Em 2016, 3.714 cidades brasileiras, 82% do total, não geraram nem 20% das receitas. Só em 136, pelo menos 40% da arrecadação vem de tributos municipais, como o ISS, o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e o Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI). O efeito disso é que, de acordo com o estudo, 86% dos municípios brasileiros estão em situação fiscal crítica. E, nesse quadro, o nível de investimentos atingiu o menor nível desde 2006 – 6,8% do orçamento das cidades destinados para esse fim.

“A melhor forma de aumentar as receitas próprias é melhorando a eficiência da cobrança dos impostos municipais”, diz Ana Dal Fabbro, gerente de projetos da Fundação Brava, uma ONG que tem como uma de suas atribuições melhorar a gestão fiscal dos municípios. Um dos projetos da Brava é o Otimiza, uma ferramenta online que permite comparar quando uma cidade arrecada de impostos na comparação com outras do mesmo nível de desenvolvimento.

“Se um município consegue arrecadar menos com IPTU do que outro com o mesmo perfil, é sinal de que algo está errado”, diz Dal Fabbro. Macapá (AP), que ocupa a 99ª posição no ranking da Macrolan, poderia arrecadar quase R$ 13 milhões a mais com IPTU – mais do que os quase R$ 9 milhões arrecadado em 2016.

Mudar o perfil de arrecadação de um município não é tarefa simples. “A situação fiscal é complexa e não será resolvida rapidamente”, diz Gláucio Neves, sócio da Macroplan. Nessa situação, é preciso melhorar a produtividade do gasto, ou seja, gastar melhor e entregar melhores serviços à população. A educação é uma das melhores áreas em que gastar mais não garante resultados. Segundo a Macroplan, Porto Alegre foi a cidade com maior gasto por aluno em 2015, 16.681 reais, mas entrega 77° maior nota no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) entre os cem municípios analisados (4,8). Do outro lado, está Joinville (SC), que gastou 4.798 reais por aluno e atingiu 6,9 no Ideb, a terceira melhor. Enquanto a capital gaúcha gastou 3.475 reais por ponto, a cidade catarinense despendeu 695 reais.

Segundo o secretário de Educação de Joinville, Roque Mattei, o bom desempenho no Ideb se deve a investimentos na construção de novas escolas e em tecnologia, como distribuição de tablets para os alunos, lousa digital e internet rápida nas escolas. “Mas o diferencial é o que se consegue fazer sem dinheiro”, diz. Mattei diz que as escolas da cidade podem escolher entre 56 projetos que ajudam a melhorar o desempenho escolar e não custam um centavo à prefeitura. Entre eles, educação financeira, curso de oratória, além de aulas de música e dança. “Contamos com muito trabalho voluntário e doações de empresários locais.”

O projeto mais recente tampouco dependeu de quantias vultosas. Trata-se do “Segredo de Singapura para o Sucesso de Matemática e Ciências.” Em março, a cidade recebeu dois professores de Singapura para treinar 40 professores na metodologia de ensino que fez da pequena ilha do sul da Ásia um destaque educacional global – e que foi fundamental para o salto no PIB per capita de 3400 dólares na década de 60 para 55 mil dólares no ano passado.

O objetivo é incentivar o gosto dos alunos por ciência e matemática deixando de lado as aulas focadas na memorização de conteúdo em favor de maior participação dos alunos. “Queremos desenvolver autonomia, curiosidade e criatividade dos alunos”, diz Mattei, que é vice-presidente nacional da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Segundo ele, a escola da cidade mais pobre do país pode copiar a metodologia. “Basta ter professores treinados e materiais como caixas, copos plásticos e canudos para o desenvolvimento das atividades.”

Mesmo áreas que não são vistas como de responsabilidade das prefeituras, como segurança pública, se beneficiam quando os gestores municipais arregaçam as mangas. Como Diadema. O município da Grande São Paulo avançou 31 posições entre 2006 e 2016 no ranking da Macroplan para segurança e está na 14ª posição. Segundo Daniel Cerqueira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e conselheiro do Fórum de Segurança Pública, Diadema foi um dos primeiros municípios a criar políticas na área de segurança pública. Em 2002, a Câmara de Vereadores aprovou a Lei de Fechamento de Bares, que obriga esses estabelecimentos a fechar as portas às 23 horas.

Os resultados apareceram: Em 1999, Diadema era conhecida como a cidade mais violenta do país, com taxa de 105 por cem mil habitantes. Em 2016, caiu para 8,29. “A lei foi criada a partir de um trabalho de inteligência que descobriu que boa parte dos crimes ocorria próximo a bares e depois das 23 horas”, diz Cerqueira.

A Lei Seca de Diadema só deu certo porque atacava um problema previamente identificado. Em outra cidade, ou em outro momento, o remédio poderia ser outro. Por isso, as políticas públicas precisam ser precedidas de estudo de caso, diagnóstico e planejamento. “Num cenário de restrição fiscal, o gestor público não pode contar com chance de erros ou achismos”, diz Neves, da Macroplan. Em Maringá, as políticas criadas pelo Codem e pelos gestores públicos são fiscalizadas pelo Observatório Social, formado por voluntários de diversas áreas. “Polícias que demandam gastos públicos precisam ser fiscalizadas e ter sua efetividade medida”, diz o prefeito. Com zelo pela coisa pública, a gestão melhora, os resultados aparecem – e a população agradece.

Exame 06/08/2018

Humberto Maia Junior

Link: https://exame.abril.com.br/economia/o-segredo-de-cidades-que-melhoram-mesmo-na-crise-2/

Poluição que mata: por que o ar que você respira pode fazer tão mal

De acordo com a OMS, problema causa 50 mil mortes por ano no Brasil

No mundo, a poluição atmosférica e dentro de residências provocou 7 milhões de mortes em 2016Mateus Bruxel / Agência RBS

Não estamos em um campo de guerra, mas, diariamente, respiramos um ar que pode nos matar. Segundo levantamento divulgado em maio pela Organização Mundial da Saúde (OMS), nove em cada 10 pessoas no mundo respiram ar poluído. No Brasil, ele é responsável pela morte de 50 mil pessoas a cada ano, por causar doenças como câncer de pulmão, ataque cardíaco e derrame cerebral.

O documento alerta sobre um assunto que jogamos para debaixo do tapete (ou melhor, pela chaminé e pelo carburador): nosso estilo de vida está agredindo o planeta e, ao mesmo tempo, a nós mesmos.

No mundo, a poluição atmosférica e dentro de residências (gerada na queima de lenha ou de querosene) provocou 7 milhões de mortes em 2016 – principalmente, entre moradores de grandes cidades e de países de média e baixa rendas, em especial na Ásia e na África. As populações mais afetadas são crianças de até cinco anos, idosos e pessoas com problemas respiratórios (como asma) ou cardíacos (pressão alta ou insuficiência).

A maioria das 35 cidades brasileiras analisadas pela OMS tem concentração de poluentes acima do recomendado pela entidade (Brasília é a pior capital). Porto Alegre não entrou no levantamento porque, desde 2017, não conta com estações de monitoramento, o que impede o acompanhamento do cenário e, claro, a fiscalização.

– Pelos dados que temos, pode-se dizer que alguns municípios e regiões metropolitanas do Brasil ainda apresentam índices altos de poluição, ultrapassando os níveis de referência da OMS para qualidade do ar em mais de cinco vezes. O Brasil também tem um problema sério com as queimadas, que comprometem a qualidade do ar em áreas urbanas nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste – diz Katia de Pinho Campos, coordenadora de Determinantes da Saúde do escritório da OMS no Brasil.

No Brasil, as indústrias eram a principal fonte de poluição até a década de 1980. Mas, na década de 1990, muitas empresas se mudaram para o interior e os veículos passaram a ser a principal fonte de poluentes em conglomerados urbanos.

Dos combustíveis, o diesel, usado em ônibus e caminhões, é o mais agressivo. Na capital paulista, pesquisa do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) publicada em julho apontou que ônibus e caminhões, apesar de representarem apenas 5% da frota veicular da cidade, são responsáveis por 50% dos poluentes. Uma solução simples, sugerem os autores, é instalar bons filtros no escapamento dos ônibus.

– É um problema de saúde pública difícil de resolver. Se invento um jeito de acabar com o mosquito da malária, ganho um prêmio. Se invento um jeito de exterminar os carros, serei extraditado para Plutão. Subsidiamos uma mobilidade ultrapassada. Há interesses econômicos, com um lobby organizado no Congresso e questões culturais. Mas não faz sentido: se você computar os custos de mortalidade precoce e atendimentos hospitalares por poluição, verá que, além de vidas, também perdemos dinheiro – avalia o patologista Paulo Saldiva, professor da USP que fez uma pesquisa cujo resultado apontou que permanecer duas horas no trânsito de São Paulo equivale a fumar um cigarro.

A pesquisadora Simone Miraglia, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), calculou esse prejuízo econômico para 2014 ao analisar o ar de 29 regiões metropolitanas do país. Descobriu que a grande concentração de material particulado, uma poeira fina que sai de pneus e carburadores, considerada a pior poluição presente nas grandes cidades, causou a morte prematura de mais de 20 mil pessoas. O prejuízo aos cofres do Ministério da Saúde foi de US$ 1,7 bilhão – 2% do orçamento da pasta no ano.

Em outro estudo, ao analisar a poluição de São Paulo, ela mostrou que, se a quantidade de poluentes caísse em 25%, a expectativa de vida da população cresceria em cinco meses.

 

Materiais nocivos que se espalham por todo o corpo 

A quantidade de poluição no ar depende do número de fontes emissoras (muitos veículos e indústrias, uso de lenha e gás na cozinha), do relevo e do clima da cidade. Lugares com pouco vento e chuva ou que são circundados por morros tendem a ser mais poluídos. No inverno, a poluição piora, porque o frio dificulta que ela se afaste do solo.

Quem vive em regiões com ar muito sujo pode apresentar sintomas fáceis de notar, como garganta e boca secas, falta de ar e tosse – tentativas do corpo de jogar para fora os intrusos que entram pelo sistema respiratório. Outros sinais são silenciosos: maior risco de infarto, obesidade, prejuízo à memória e até mesmo impacto na fertilidade.

Os chamados materiais particulados são os principais responsáveis por atentar contra nossa saúde. São eles que sujam de cinza as fachadas de edifícios. No organismo, entram pelas narinas até o pulmão e, a partir daí, espalham-se pela corrente sanguínea e o corpo inteiro – chegando, inclusive, ao cérebro.

Na Europa, uma série de países se movimenta para banir o diesel dos veículos. A Noruega quer fazê-lo até 2025, e a França, até 2040. A ambição, no entanto, contrasta com a dificuldade de implantar estações de recarga para carros elétricos ao longo do território. Sem contar que há uma pressão econômica: milhões de empregos dependem diretamente da indústria automotiva.

A China também busca conter a fumaça: em 2014, o governo determinou que as áreas urbanas reduzissem os níveis de poluição em pelo menos 10%. Para isso, proibiu novas termoelétricas, trocou carvão por gás natural nas indústrias e restringiu o número de carros nas ruas. Até agora, vem dando certo. Em Pequim, após a prefeitura investir US$ 120 bilhões no assunto, os índices caíram 35%. Esforços assim são vistos por especialistas como uma forma de melhorar a saúde da população.

– Em 2013, a OMS incluiu a poluição atmosférica na lista de agentes que provocam câncer, assim como o cigarro. No caso do cigarro, a pessoa fuma ou não. Em cidades grandes, não há escapatória. No engarrafamento, a emissão de poluentes do carro aumenta em até 30%. Quem mora na periferia é que mais sofre, porque tem menos acesso à saúde, usa transporte coletivo precário e, por morar longe, fica mais tempo exposto à poluição – alerta Cláudia Ramos Rhoden, coordenadora do Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

 

Os principais vilões

  • Material particulado: mistura de partículas líquidas e sólidas que flutuam no ar, criadas na queima de combustíveis, no atrito do pneu no asfalto e até do cigarro. Entre os agentes nocivos estão silício, titânio, alumínio, ferro, níquel, chumbo e óxidos de enxofre e de nitrogênio. O material particulado está ligado à maior incidência de câncer e problemas respiratórios. É o pior poluente, responsável por envelhecer as células. Está diretamente relacionado a doenças e mortes por problemas cardíacos e pulmonares e à maior vulnerabilidade a infecções por doenças respiratórias.
  • Ozônio (O3):é resultado da reação química entre a luz solar e agentes poluentes (como o dióxido de nitrogênio) e compostos orgânicos voláteis (como hidrocarbonetos, derivados da queima de combustíveis). Normalmente, aumenta na hora do rush das cidades grandes e atinge o ápice à tarde. Irrita o sistema respiratório (tosse, dor de garganta, dor no peito ao inspirar profundamente), agrava a asma, diminui o fôlego, agride as células dos pulmões e reduz as suas defesas, inflama pulmões e brônquios, o que os deixa mais vulneráveis a infecções.
  • Dióxido de nitrogênio (NO2): é expelido na combustão dos motores de carros, barcos e centrais elétricas. Motores a diesel emitem uma quantidade ainda maior. É um grande responsável por asma e problemas respiratórios em crianças.
  • Dióxido de enxofre (SO2): nasce da queima de combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, em veículos e termoelétricas. Em contato com o oxigênio, ele se transforma em ácido sulfúrico (H2SO4), que irrita as vias respiratórias.
  • Monóxido de carbono (CO): ao ar livre, é expelido por automóveis. Em ambientes internos, aparece no uso de aquecedores a óleo, churrasqueiras e fogão a gás e cigarro. Em grandes quantidades, o CO diminui a capacidade do sangue de transportar oxigênio.

Os efeitos da poluição no corpo

Doenças respiratórias

As vias aéreas são o hall de entrada da poluição, portanto os pulmões são os órgãos mais vulneráveis. Os gases e o material particulado que inalamos chegam aos brônquios e, em seguida, caem na corrente sanguínea. A partir daí, espalham-se pelo corpo todo. Quem vive em zonas de grande poluição costuma ter mais crises asmáticas e redução do desempenho pulmonar. Os bebês estão entre os mais vulneráveis, pois é logo após o nascimento que são formados 80% dos alvéolos, onde ocorrem as trocas gasosas – assim, alterações no pulmão podem prejudicar a expectativa de vida. Metade dos casos de pneumonia em crianças é causada pela poluição. Entre os adultos, o câncer de pulmão é outra consequência, porque o material particulado afeta a membrana das células, um gatilho para alterar o DNA de células.

Cérebro

Estudos apontam que o material particulado prejudica as conexões entre os neurônios, o que poderia estar relacionado a problemas de memória, aprendizagem e Parkinson. A poluição aumenta a presença de compostos de ferro no cérebro, um marcador muito comum em quem tem Alzheimer. Também já foi notado que a poluição gera estresse oxidativo (envelhece os neurônios) e que crianças gestadas e crescidas em áreas de grande fluxo de carros têm pior memória e aprendizagem do que aquelas que cresceram em locais menos poluídos.

Coração

O sistema cardiovascular é uma grande vítima: a poluição e, em especial, o monóxido de carbono, impede que os glóbulos vermelhos transportem oxigênio, o alimento das células do corpo – em última instância, isso causa a morte celular. Para coroar, os gases da poluição aumentam a produção de radicais livres, que geram inflamação nos vasos sanguíneos, impedindo a produção de óxido nítrico, um vasodilatador. Os vasos ficam mais estreitos, o que aumenta o risco para pressão alta, entupimento de artérias e aterosclerose. Há estudos verificando que quem vive em regiões poluídas têm pressão mais alta, o que, a longo prazo, pode contribuir para arritmia, derrames e infartos. A poluição também aumenta a capacidade do sangue de coagular. Assim, ele torna-se mais viscoso, o que sobrecarrega o coração e aumenta o risco para entupimento de artérias e a formação de trombos, causa de acidente vascular cerebral (AVC).

Aumento de peso

A ciência vê indícios de que a poluição desequilibra o sistema endócrino, principal responsável pela produção hormonal. Com a alteração no metabolismo, o apetite e o funcionamento da queima calórica ficam desregulados.

Sistema reprodutor

Paulo Saldiva, da USP, conduziu um estudo cuja conclusão aponta que, em bairros de São Paulo com maior tráfego de carros, é maior o índice de nascimento de meninas, em vez de meninos. Também há evidências de que a qualidade dos espermatozoides é prejudicada e que a ejaculação diminui. Tudo está relacionado ao desequilíbrio na produção de hormônios, em especial na progesterona (feminino) e na testosterona (mais produzido em homens). Ainda há maiores riscos de aborto e de o bebê nascer prematuro e com baixo peso.

 

Saídas dependem de políticas públicas

Há soluções para conter os efeitos da atividade humana na atmosfera. Individualmente, você colabora ao deixar o carro na garagem em prol do ônibus e da bicicleta, checar se o filtro de ar do seu veículo está funcionando bem, usar fogões e combustíveis limpos, reduzir o lixo doméstico e reciclá-lo. Na hora do esporte, evite correr em ruas com grande fluxo de veículos.

– Durante o exercício, o volume de ar que entra no pulmão é bem maior, então mais poluição é inalada – destaca Marcelo Gazzana, chefe do serviço de pneumologia e cirurgia torácica do Hospital Moinhos de Vento.

Mas a saída de maior relevância depende de políticas públicas, algo em que vamos muito mal no comparativo com outros países. Enquanto lá fora o incentivo é para melhorar transporte público e ciclovias, por aqui o assunto ainda mobiliza pouco. Porto Alegre sepultou a ideia de metrô no ano passado, e o BRT, sistema de ônibus rápido, ficou para trás.

– É preciso que as evidências sobre os riscos e efeitos na saúde já reconhecidos estejam na pauta das demais políticas públicas, como as de meio ambiente, mobilidade urbana, transportes, indústria e comércio ou de agricultura. Isso deve ser feito por meio de legislações que estabeleçam os níveis permitidos, que tenham bons sistemas de monitoramento e vigilância e que desenvolvam ações locais para redução das fontes de poluição, como a melhoria do transporte público, a qualidade dos combustíveis e dos motores dos carros, a fiscalização das fontes fixas e das queimadas – diz Katia de Pinho Campos, da OMS no Brasil.

A fiscalização brasileira, em específico, é um problema básico: acompanhamos muito mal a poluição do ar, o que dificulta a elaboração de políticas adequadas – como investir em mudanças sem ter real dimensão do problema?

É o caso de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Por falta de verba, a Capital não faz ideia de como está a qualidade do ar desde o ano passado. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Alegre (Smam) informou que não tem previsão de voltar a ter estações de monitoramento.

Para piorar, desde 2014, a prefeitura não multa motoristas que conduzam veículos que poluam demais. A justificativa da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) é de que o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) baixou uma resolução que impõe maiores exigências nas blitze, o que dificulta a fiscalização.

– Tentamos mudar junto ao Contran, mas não conseguimos. Agora, fazemos abordagens em caráter educacional. Orientamos a pessoa, mas sem aplicar multa – explica Fabio Berwanger Juliano, diretor de operações da EPTC.

A nível estadual, a Secretaria de Meio Ambiente (Sema) afirma que o ar no Rio Grande do Sul está dentro do padrão, conforme suas medições. No entanto, das 13 estações de acompanhamento de qualidade de ar do Estado, só sete funcionam – nenhuma em Porto Alegre.

– Nas estações que medimos, a média anual é de que o ar é de bom a regular. Está dentro dos padrões definidos pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). Mas sete estações para atender a todo o Estado é pouco. É uma realidade que temos. Colocar cada estação em funcionamento exigiria cerca de R$ 1 milhão – diz Márcio Vargas, chefe da divisão de monitoramento ambiental da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam).

No entanto, os próprios padrões de poluição definidos pelo governo federal são postos em xeque por especialistas. Por aqui, o limite anual (50 µg/m3) é mais do que o dobro do estipulado pela OMS (20 µg/m3). E a regra é defasada: foi definida em 1990 e não inclui a contagem de partículas mais finas de poluentes, algo medido em entidades internacionais.

– Esse ar bom é falso. É como se por algum decreto o Ministério da Saúde aumentasse o limite da pressão arterial, apesar do recomendado lá fora. A comunicação feita no Brasil é desprovida de bases científicas – afirma Vargas.

Cláudia Ramos Rhoden, da UFCSPA, já conduziu várias análises na Capital e descobriu, por exemplo, que o bairro Humaitá tem altos níveis de poluição – a hipótese é de que a região é porta de entrada para a cidade e, por conta da malha rodoviária, tem grande fluxo de veículos. Por outro lado, regiões como a Hípica, longe do trânsito, têm o ar mais limpo.

– No inverno passado, a UFCSPA fez a medição de poluição por material particulado próximo ao Túnel da Conceição. O nível deu mais do que o dobro do recomendado pela OMS. Em muitos lugares, as pessoas consultam o nível de poluição para saber se podem correr na rua. Não há política pública interessada nisso por aqui. E o cidadão tem direito a saber o ar que respira – diz Cláudia.

 

Gaucha ZH / Saúde – 04/08/2018

Link: https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2018/08/poluicao-que-mata-por-que-o-ar-que-voce-respira-pode-fazer-tao-mal-cjkep4oa000mf01pid5pufsqu.html

 

 

TRANSPÚBLICO 2018: Grande Florianópolis avança na implantação de uma Rede Integrada de Transporte Coletivo Metropolitano (VÍDEO)

Célio Sztoltz, diretor técnico da Suderf, que coordena a integração das funções públicas de interesse comum na área metropolitana, conversou com o Diário do Transporte sobre o estágio atual do transporte coletivo da região, e explicou como se dará a introdução de ônibus com tecnologias limpas 

ALEXANDRE PELEGI

Célio Sztoltz, diretor técnico da Superintendência de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Grande Florianópolis, a Suderf, esteve presente na Transpúblico 2018, na companhia do consultor e especialista Olimpio Alvares, coordenador da comissão de meio ambiente da Associação Nacional de Transporte Públicos (ANTP).

Olimpio vem colaborando na formatação de uma rede integrada do transporte na Grande Florianópolis, na busca de soluções que permitam um transporte coletivo mais eficiente, ambientalmente correto, com preço justo e rápido.

A exemplo de outras regiões metropolitanas brasileiras, o passageiro da Grande Florianópolis também sofre com a falta de integração.

A proposta de uma rede integrada do transporte abrange oito municípios e vem sendo debatida não só com as prefeituras e câmaras de vereadores, como também com as comunidades locais, além de técnicos e especialistas da área.

A proposta atual da Rede Integrada de Transporte Coletivo Metropolitano exclui a capital Florianópolis, e abrange as cidades que estão sem contratos de concessão do transporte público em vigor, o que inclui o sistema de transporte intermunicipal.

O objetivo do projeto é integrar o transporte coletivo nestas cidades com uma única política tarifária. E garantir um transporte ambientalmente correto.

“Hoje temos linhas sobrepostas que não têm integração, nas quais o usuário precisar pagar caro e percorrer longas distâncias desnecessárias. Nosso objetivo é oferecer deslocamentos mais curtos, com tarifas mais baixas, mais horários e a maior abrangência territorial que estimule o desenvolvimento dos municípios”, explicou o diretor técnico da Suderf, Célio José Sztoltz.

Diário do Transporte conversou com Célio Sztoltz sobre o atual estágio do projeto, inclusive diante da realidade da região metropolitana de São Paulo, onde há duas licitações praticamente em paralelo, mas que não se conversam.

Diário do Transporte 03/08/2018

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Link: https://diariodotransporte.com.br/2018/08/03/transpublico-2018-grande-florianopolis-avanca-na-implantacao-de-uma-rede-integrada-de-transporte-coletivo-metropolitano-video/

 

O que temos a aprender com as cidades que já envelheceram

Prevalência de idosos em Niterói, Santos e São Caetano desafia sistemas de saúde, mobilidade urbana, lazer e reinserção no mercado de trabalho

Por O Globo

Elisa Martins e Daiane Costa

05.08.2018

https://oglobo.globo.com/economia/o-que-temos-aprender-com-as-cidades-que-ja-envelheceram-22948995

Idosos praticantes de bocha no Cise de São Caetano – Tom Dib / Agência O Globo

A realidade de Niterói, no Grande Rio; Santos, no litoral paulista; e São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo permite antecipar os desafios do envelhecimento da população que serão enfrentados por outras cidades a partir de 2031, quando o país todo terá mais idosos que crianças e adolescentes. Essa inversão já pressiona as administrações (e os orçamentos) das três cidades a desenvolver políticas diferenciadas para um público que se afasta cada vez mais do estereótipo de recluso ou sedentário. Os principais problemas — e soluções — aparecem na saúde, mobilidade urbana, lazer e reinserção no mercado de trabalho.

Com a alta concentração de cabeças brancas e suas aposentadorias, essas cidades têm em comum um PIB per capita relativamente mais alto que a maioria dos municípios brasileiros. Isso colabora para que elas sejam detentoras dos mais altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDHM) no país, indicador que considera os níveis de longevidade, educação e renda. As três cidades também apontam para o sucesso de políticas de longo prazo, independentemente de mudanças administrativas.

Pequeno município do ABC paulista, São Caetano do Sul tem o melhor IDHM do Brasil desde que o levantamento começou a ser feito, nos anos 1990. Assim como Niterói e Santos, o envelhecimento da população obriga a cidade a gastar mais com a saúde dos idosos que com a educação dos jovens. A Secretaria Municipal de Saúde fica com a maior fatia do orçamento de São Caetano: 27%. Segundo a titular da pasta, Regina Maura, pelo menos metade dos recursos são consumidos na atenção aos idosos.

Para lidar com essa pressão orçamentária, a cidade escolheu investir também em atividades preventivas. Os cerca de 33 mil idosos da cidade contam com quatro Centros Integrados de Saúde e Educação (Cises), que consome cerca de R$ 20 milhões por ano com aulas de dança, esportes, informática e idiomas. A cidade quer abrir mais dois até 2019.

— A exigência dos idosos é alta. Quando se criou a UniMais, a universidade da terceira idade, por exemplo, os cursos durariam dois anos. Mas, quando acabaram, eles quiseram pós-graduação — conta a secretária.

A aposentada Maria Palko (a idade é mantida em segredo por ela) era uma das poucas mulheres na quadra de bocha em um dos Cises de São Caetano na última semana. Joga praticamente todos os dias, quando o joelho permite, enquanto o marido disputa partidas de baralho em outra sala.

— Venho aqui, jogo uma partida, bato papo… tenho marcapasso, não posso abusar. Mas não vou fazer como muita gente, que fica só em casa esperando a morte chegar — conta ela, que nasceu na vizinha Santo André e mora em São Caetano há mais de 40 anos.

Idosos fazem atividade ao ar livre na praia de Icaraí – Márcia Foletto / Agência O Globo

Maria diz que “até quando der” vai aproveitar as atividades dos Cises. Espera ansiosa voltar a ser chamada para dar aulas de pintura no centro – as aulas foram canceladas, diz ela. Fora dos Cises, há alguns equipamentos adaptados de ginástica em praças e parques da cidade. Em um deles se exercitava o aposentado Osvaldo Rodrigues Negro, de 72 anos.

— São Caetano sempre foi boa para os mais velhos. Mas a marcação de consultas tem demorado mais, e o acesso a remédios poderia melhorar — opina ele.

SAÚDE FICA COM MAIS DE UM QUARTO DO ORÇAMENTO

Só as atividades preventivas para a saúde, como os Cises, viagens para terceira idade e cursos universitários para idosos consomem cerca de R$ 20 milhões por ano em São Caetano.

— Se não fossem os Cises e os programas de saúde, que têm impacto positivo para prevenção de doenças, essa conta já seria insustentável. O nível de exigência dos idosos de São Caetano é alto. São uma população atualizada, que cobra de volta o que pagou de impostos. Quando se criou a UniMais, a universidade aberta à terceira idade, por exemplo, os cursos durariam dois anos. Mas, quando acabaram, eles quiseram uma pós-graduação. Muitos buscam continuar trabalhando, seja por vontade ou necessidade — conta a secretária da Saúde.

Os programas públicos de reinserção no mercado de trabalho para maiores de 60 anos têm remuneração mais alta do que os programas voltados para os mais jovens, o que já gerou reclamações dos iniciantes. O programa “agente sênior” contrata 200 idosos por ano para trabalharem na administração pública, durante quatro horas por dia, com um salário de R$ 954 e uma cesta básica. Os interessados devem ter renda máxima de até dois salários mínimos, e passam por triagem médica e um programa de seleção, que inclui provas e entrevistas. Maria Helena Fernandes de Freitas, de 66 anos, começou em fevereiro como recepcionista na secretaria da Saúde.

— Me aposentei aos 60 anos. Meu último emprego foi na diocese de Santo André. Voltei este ano, e tem sido bom tanto no aspecto financeiro quanto na autoestima. Distraio a cabeça, faço amizades, as pessoas são carinhosas – conta ela, que faz dança do ventre e hidroginástica. — O que poderia melhorar em São Caetano é a mobilidade nas calçadas. E quem sabe o metrô chega aqui um dia?

Sonia Maria Costa, 68 anos, aposentada e moradora de Santos – Marcos Alves / Agência O Globo

Maria Helena se alterna na mesma recepção com Nina Bernardes, nascida em Uberlândia há 66 anos, mas moradora de São Caetano há 48.

— Sempre trabalhei como secretária. Fiquei dois anos aposentada, mas voltei a trabalhar porque senti que ainda tinha muita coisa para fazer. Meus filhos já estão criados. E aqui também aprendo muito — conta Nina. — Os mais velhos têm prática, responsabilidade e muita coisa para ensinar, e aprender também. O que poderia melhorar em São Caetano são as oportunidades de saídas noturnas. Só existe um teatro e um shopping. Para muitas coisas precisamos ir a São Paulo.

Nina diz que conhece vários idosos que voltaram a trabalhar em São Caetano. É um esforço também para vencer o preconceito. Mas falta aumentar as oportunidades na cidade cuja história se une à inauguração de um complexo industrial da General Motors, em 1930. O desafio do governo local, hoje, é expandir os programas de emprego para essa população para além do setor público.

— As pessoas não saem de São Caetano quando envelhecem. Hoje existe uma preocupação de ampliar programas como o do agente sênior a empresas privadas, para criar mais oportunidades de trabalho — diz Regina.

O Conselho Municipal do Idoso, órgão que propõe políticas públicas e fiscaliza o atendimento dos direitos dos idosos em São Caetano, conseguiu recentemente R$ 500 mil em doações via um fundo do município para reverter em projetos para a terceira idade. Entre eles, estão iniciativas de turismo e de cursos de culinária para geração de renda, segundo Welbe Macedo, presidente do conselho. A expectativa é que comecem a funcionar no ano que vem. Há também estudos em curso para aumentar o tempo de duração do sinal vermelho e ampliar o número de quebra-molas nas ruas, em uma cidade que tem algo de ladeiras e calçadas elevadas.

PRAIA, PLANÍCIE E TEMPERATURAS AMENAS EM SANTOS

Em Santos, a 80km de São Paulo, e Niterói, cidade colada na capital fluminense, os cenários são mais desafiadores. Santos tem o sexto melhor IDHM do país e o triplo da população total de São Caetano – 433,9 mil habitantes – e o triplo de idosos – 93,4 mil, para 73,3 mil jovens. A praia, a cidade plana e o clima ameno atraem pessoas que escolhem viver ali a aposentadoria.

Apesar de os maiores de 60 anos corresponderem a cerca de 20% da população santista, nos serviços municipais de saúde essa parcela responde por 28% dos atendimentos. São R$ 166 milhões direcionados a atendimentos à terceira idade este ano, mais que o orçamento do ano passado para eles em saúde, de R$ 149 milhões.

— Santos é referência para os idosos. Mas claro que temos desafios na questão do envelhecimento ativo. E há maior investimento na prevenção em saúde justamente para minimizar impactos orçamentários no futuro — conta Flávio Jordão, secretário de Desenvolvimento Social de Santos.

A pasta prevê R$ 3,6 milhões de verba este ano para programas para a terceira idade, entre eles o “Vovô sabe tudo”. A ideia emprega pessoas como seu Félix, que recebe turistas na estação do Valongo e conta histórias sobre o bonde em que trabalhou até os anos 1970. — Me sinto útil, as pessoas me ouvem, me acolhem. Se pudesse ficava sempre — diz ele sobre o programa, que dura um ano.

Há ainda três Espaços do Idoso, que oferecem aulas de dança, esportes e idiomas. E projetos de inclusão digital como o “Vovônauta”. Waldir de Oliveira, de 68 anos, e Edna Fernandes, de 72, são alunos desde o início do ano. Com a professora Marcela Matias Pinto, aprendem a usar os pacotes Office, e-mail e até aplicativos de celular.

— Sempre fui vendedor, e agora trabalho como autônomo. Preciso me atualizar em informática para poder vender meus produtos. Estava virando um analfabeto digital — conta Waldir.

Já a preocupação de Edna é com o celular:

— São muitos aplicativos, fico perdida. Aqui os professores têm de sobra o que muitas vezes a família não tem para ensinar: paciência. E mais que uma inclusão digital, isso vira inclusão social.

Outros centros, como o Sesc, investem em programação cultural. Já a adaptação dos serviços vai mais devagar.

— Mesmo assim, houve um crescimento de 20% nos dois últimos anos no número de academias que se adaptaram ao atendimento às necessidades do idoso. E as agências de turismo também aumentaram em 10% o portfólio de viagens para a terceira idade — conta Camilo Rey, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Santos.

Nas ruas, o transporte começa a se adequar. Um dos projetos que mais chama a atenção é o “Vô de táxi”. Um programa que virou aposta em Santos para treinar os motoristas no atendimento aos idosos da cidade, que passam de 90 mil. Mais de cem taxistas já receberam a capacitação, que inclui aulas teóricas sobre envelhecimento e uma parte prática com fisioterapeutas sobre cuidados no embarque e desembarque de pessoas maiores de 60 anos.

— Os professores simularam que precisavam entrar com cadeira de rodas ou bengala — conta o taxista Edgar Januário Junior.

A ideia uniu a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), cooperativas e o Sindicato dos Taxistas de Santos, “para trazer mais segurança aos que usam o transporte e seus familiares”, disse a prefeitura. Ao final do curso, os “alunos” ganharam um adesivo para o veículo com o selo “Taxista amigo do idoso”. E Edgar trocou seu carro por um adaptado para cadeira de rodas.

— O curso ajudou muito. Trabalho com pessoas de casas de repouso, levo para médicos. É preciso ter paciência e boa vontade. E, se Deus quiser, chego lá também — diz o motorista de 49 anos, taxista desde os 25.

GINÁSTICA NA PRAIA HÁ 25 ANOS EM NITERÓI

O jornalista Carlos Alberto Neves, de 76 anos, em Niterói – Márcia Foletto / Agência O Globo

Em Niterói, 7° melhor IDHM, a Secretaria do Idoso foi criada há apenas três anos, em meio a críticas de parlamentares. À época, entendiam que era hora de cortar gastos, não de criar novas despesas. O orçamento previsto para este ano é de 2,22 milhões, sendo R$ 1,6 milhão para implementar um Centro de Convivência para atividades físicas e capacitações, explica o secretário da pasta, Beto Saad. O Projeto Gugu é um dos mais bem sucedidos programas de ginástica e incentivo à qualidade de vida voltados para idosos do país. Foi criado há 23 anos e funciona de segunda a sexta-feira em 40 núcleos, sendo três deles de dança.

A UFF tem ao menos duas iniciativas voltadas a esse público: o Centro de Atenção à Saúde do Idoso e seus Cuidadores (CASIC) e o Programa de Preparação para a Aposentadoria. A mobilidade urbana ainda é motivo de reclamações de idosos com dificuldades para caminhar em calçadas irregulares e sem rampas de acesso.

DESCENTRALIZAÇÃO DE POLOS DE CONVIVÊNCIA

É segunda-feira. A roda de moradores vai se formando aos poucos, a partir das 15h, no salão de festas do Condomínio Itaparica, em Icaraí, bairro nobre de Niterói. A maioria já passou dos 60 anos e aguarda ansiosa o início do musical. A banda local também é formada por grisalhos. Eles se encontram toda a semana para diferentes atividades de lazer e oficinas. Antes de participar dos encontros, a maioria dos vizinhos nem se conhecia. Passavam a maior parte do tempo sozinhos em seus apartamentos.

Atividade no condomínio Itaparica, em Niterói – Roberto Moreyra / Agência O Globo

O edifício é um dos sete polos para os quais foram estendidas as atividades do centro de convivência para a terceira idade Casa Convívio dos Anawin, que atua há 18 anos na cidade. A coordenação da casa resolveu promover atividades mais perto dos idosos com a ajuda de voluntários, para incluir mais idosos, já que a capacidade de atendimento da sede, no Bairro Santa Rosa, já está esgotada, tamanha a demanda. Assim, eles podem fazer atividades no local onde vivem. Para aderir ao programa, basta o síndico do condomínio entrar em contato com a direção da Casa.

‘Agente sênior’ oferece vagas para veteranos no setor público

Voltar ao mercado de trabalho foi um impulso para as finanças e também para a autoestima dos participantes do programa “agente sênior” de São Caetano do Sul, no ABC paulista. A iniciativa seleciona 200 idosos por ano para trabalharem na administração pública, durante quatro horas por dia, com um salário de R$ 954 e uma cesta básica. Os interessados devem ter renda máxima de até dois salários mínimos e passam por triagem médica e um programa de seleção acirrado, que inclui provas, como de redação, e entrevistas.

— Eu me aposentei há seis anos e voltei a trabalhar agora. Distraio a cabeça, faço amizades, as pessoas são carinhosas — conta Maria Helena Fernandes de Freitas, de 66 anos, que desde fevereiro é recepcionista na secretaria da Saúde de São Caetano.

Ela alterna o posto com Nina Bernardes, 66 anos, e moradora da cidade há 48:

— Fiquei dois anos aposentada, mas voltei a trabalhar porque ainda tinha muita coisa para fazer. Meus filhos estão criados. As pessoas mais velhas têm responsabilidade e muito o que ensinar, e aprender também.

‘Vô de táxi’ capacita motoristas no transporte de idosos

O nome diz tudo: “Vô de táxi”. Um programa que virou aposta em Santos para treinar os motoristas no atendimento aos idosos da cidade, que passam de 90 mil. Mais de cem taxistas já receberam a capacitação, que inclui aulas teóricas sobre envelhecimento e uma parte prática com fisioterapeutas sobre cuidados no embarque e desembarque de pessoas maiores de 60 anos.

— Os professores simularam que precisavam entrar com cadeira de rodas ou bengala — conta o taxista Edgar Januário Junior.

A ideia uniu a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), cooperativas e o Sindicato dos Taxistas de Santos, “para trazer mais segurança aos que usam o transporte e seus familiares”, disse a prefeitura.

Ao final do curso, os “alunos” ganharam um adesivo para o veículo com o selo “Taxista amigo do idoso”. E Edgar trocou seu carro por um adaptado para cadeira de rodas.

— O curso ajudou muito. Trabalho com pessoas de casas de repouso, levo para médicos. É preciso ter paciência e boa vontade. E, se Deus quiser, chego lá também — diz o motorista de 49 anos, taxista desde os 25.