As lições de Barcelona, Havana e Tianjin para tornar as cidades brasileiras mais autossuficientes

Ao bloquear carregamentos nas estradas e impedir o reabastecimento de postos, a recente greve dos caminhoneiros deixou várias cidades brasileiras à beira do colapso. Em muitas delas, serviços de ônibus e de coleta de lixo foram reduzidos, mercados ficaram com prateleiras vazias e hospitais cancelaram cirurgias.

Os efeitos da greve poderiam ter sido menores caso as cidades brasileiras seguissem políticas adotadas por Barcelona, Havana e Tianjin – três metrópoles que, por razões distintas, buscaram ampliar a autossuficiência e reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

Entre as iniciativas desenvolvidas estão hortas urbanas em áreas ociosas, redes de trocas de objetos, fábricas comunitárias e túneis subterrâneos para coleta de lixo.
A BBC News Brasil descreve a seguir algumas das políticas que tornaram as três cidades alvo de grande interesse entre urbanistas.

Barcelona

Barcelona pretende se tornar uma ‘metrópole de bairros’ nas próximas décadas

Em 2011, a segunda cidade mais populosa da Espanha, com 1,6 milhão de habitantes, iniciou um plano para se tornar em 50 anos “uma cidade autossuficiente e produtiva formada por bairros com escala humana, dentro de uma metrópole hiperconectada e com zero emissões (de gases causadores do efeito estufa)”.

Arquiteto-chefe do programa até 2015, o urbanista Vicente Guallart diz que em cada vizinhança os moradores estão sendo convidados a ocupar prédios e espaços públicos com hortas e centros comunitários.

Cada distrito também deverá ganhar uma estrutura que servirá como centro de pesquisa, educação e produção. Segundo Guallart, os centros vão operar com tecnologia aberta, elaborando protótipos para uso na arquitetura, construção e design industrial. A ideia é que os próprios centros sejam capazes de fabricar os itens projetados e ajudem a saciar as necessidades da cidade.


‘Superilhas’ desestimularam o uso de automóveis em Barcelona e ampliaram espaços públicos

“Acabou a era em que objetos com design de Barcelona eram fabricados na China. Precisamos trazer as fábricas de volta e tornar nossa cidade produtiva”, ele afirmou durante uma palestra recente.

Barcelona também está estimulando a criação de redes de trocas entre os moradores, gerenciadas por aplicativos online. “Há centenas de coisas nas nossas casas que não usamos. O mundo digital nos permite interagir não só com quem está na Índia, mas com as pessoas que moram na nossa frente.”

Guallart diz ainda que, para ampliar as áreas públicas da cidade, reduzir a poluição e encorajar o uso do transporte coletivo, 25% das superfícies destinadas aos carros serão eliminadas, dando lugar a parques, palcos para eventos culturais e quadras esportivas. Automóveis só poderão circular pelas vias principais.

A política, batizada de “superilha”, já foi adotada em umconjunto de nove quarteirões, e até o fim deste ano outras cinco devem ser concluídas. No futuro, a iniciativa se estenderá por toda a cidade.

Havana

Após a queda da União Soviética, bicicletas se tornaram cruciais para o transporte em HavanaPREFEITURA

O colapso da União Soviética nos anos 1990 fez com que Cuba deixasse de receber petróleo e alimentos de sua principal parceira, mergulhando numa grave crise econômica conhecida como Período Especial.

Sem combustível para o transporte, o governo cubano importou mais de um milhão de bicicletas chinesas e as distribuiu para a população. Mais complicado era levar comida às mesas das famílias, com tratores e caminhões encalhados e fertilizantes em falta nos mercados.

Enquanto no campo o tradicional cultivo de cana-de-açúcar e a criação de rebanhos se tornavam quase inviáveis, levando muitos cubanos a virar quase vegetarianos na prática, o governo incentivou a produção de alimentos em áreas ociosas das cidades.

Em Havana, que abrigava um quinto da população cubana, técnicos australianos foram contratados para ensinar métodos de permacultura – sistema que busca ampliar a produção com o uso inteligente do espaço e de padrões naturais.


Segundo a FAO, 90 mil moradores de Havana se dedicam a alguma forma de agricultura

Cooperativas foram criadas para recolher o material orgânico gerado na cidade, transformá-lo em adubo e redistribuí-lo aos agricultores.

Segundo Paulo Rogério Lopes, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), esses grupos também ajudaram a sanar problemas sanitários, como a contaminação de lençóis freáticos pelo lixo.

Surgiram ainda centros responsáveis pela criação e distribuição de agentes naturais de controle de pragas. “Essas iniciativas permitiram a eliminação do uso dos agrotóxicos e das adubações químicas, contribuindo assim para a produção de alimentos saudáveis à população”, diz Lopes em artigo na revista Agriculturas, de 2012.

Segundo a FAO, agência da ONU para agricultura e segurança alimentar, Havana é hoje a cidade “mais verde” da América Latina e do Caribe.


Mortes por diabetes e doenças cardiovasculares caíram durante o Período Especial em Cuba

O órgão diz que 90 mil moradores da capital cubana se dedicam a alguma forma de agricultura, cultivando hortas domésticas ou trabalhando em fazendas e granjas comerciais na cidade. Na maioria delas, os alimentos são vendidos no próprio local.

Em 2013, um estudo liderado pelo médico Manuel Franco, professor da Universidade Johns Hopkins (EUA), revelou que as mudanças de hábitos alimentares e de atividade física durante o Período Especial fizeram cair as mortes por diabetes e doenças cardiovasculares em Cuba.

Por outro lado, houve um aumento nos casos de mortalidade materno-infantil e de neurite óptica, doença causada pela falta de vitaminas do complexo B.

Após a ascensão de Hugo Chávez na Venezuela, em 1999, Cuba voltou a ter uma fonte de petróleo barato, e algumas políticas adotadas no Período Especial foram flexibilizadas. Desde então, segundo Franco, os índices de diabetes voltaram a subir.

Tianjin

China diz que replicará políticas de Tianjin em outras cidades

Dona de um dos portos mais movimentados do mundo, a metrópole com 15 milhões de habitantes foi escolhida como sede de um dos experimentos urbanos mais ousados da China.

Em parceria com o governo de Cingapura, autoridades locais estão construindo uma cidade para 350 mil pessoas numa área equivalente à de 30 campos de futebol e que antes abrigava um depósito de lixo industrial.

Segundo Ho Tong Yen, presidente da empresa encarregada da construção, o local foi selecionado para provar que é possível “limpar uma área poluída e torná-la útil e habitável”.

Prédios públicos adotaram tecnologias que reduzem o consumo de energia, como um sistema de iluminação acionado por sons e movimentos e de persianas que se movem automaticamente para regular a luz e a temperatura.


Área escolhida para abrigar ‘ecocidade’ era usada como depósito de lixo industrial

Uma das principais inovações é um sistema subterrâneo de coleta de lixo a vácuo que dispensa o uso de caminhões. Nesse sistema, também adotado em Barcelona e em outras cidades asiáticas e europeias, dutos sugam o lixo e o transportam até as estações de tratamento, onde ele é separado e compactado.

Outra iniciativa, a cargo da montadora GM, pretende disseminar pela cidade carros 100% elétricos e com direção automática. A tecnologia está em fase de testes.

O governo chinês diz que as políticas adotadas em Tianjin serão um modelo para outras cidades chinesas – muitas das quais sofrem com altos índices de poluição.

BBC NEWS / Brasil 09/06/2018
João Fellet – @joaofelletDa BBC News Brasil em São Paulo